Cerca de 60% dos brasileiros com insônia recorrem a medicamentos para conseguir dormir
Um estudo realizado no Brasil com 1.158 adultos revelou que, mesmo entre aqueles que buscavam tratamentos não medicamentosos para a insônia, o emprego de remédios para dormir era bastante comum. A pesquisa, conforme reportado, mostrou que seis em cada dez participantes admitiram utilizar algum tipo de fármaco para ajudar a dormir, enquanto cerca de 38% mencionaram fazer uso dessas substâncias entre cinco e sete noites por semana.
Os pesquisadores também detectaram um dado alarmante: entre os entrevistados que relataram o uso de medicamentos para dormir, 40% o faziam sem supervisão médica. Esses dados ressaltam a importância do acompanhamento profissional e a necessidade de ampliar o acesso a tratamentos não farmacológicos baseados em evidências.
Os medicamentos da classe Z, que incluem o zolpidem, foram os mais frequentemente citados pelos participantes. Em seguida, os benzodiazepínicos e antidepressivos sedativos também foram mencionados. O zolpidem destacou-se como o medicamento mais referido tanto por usuários ocasionais quanto por aqueles que utilizavam regularmente.
Uso frequente entre pacientes que buscavam outra forma de tratamento
Dos 1.158 adultos analisados, 442 informaram usar remédios para dormir entre cinco e sete noites por semana. Esse resultado é particularmente relevante devido ao perfil dos participantes, que apresentavam sintomas de insônia e buscavam tratamentos psicológicos não farmacológicos.
Renatha El Rafihi-Ferreira, coordenadora do estudo, enfatiza que a inclusão de medicamentos no tratamento da insônia não deve ser simplificada. Ela ressalta que essas substâncias podem ter um papel importante em certas circunstâncias, mas sua prescrição deve levar em conta as particularidades de cada paciente.
A investigação estatística examinou diversos fatores que poderiam estar relacionados ao uso desses medicamentos. Porém, idade, sexo, escolaridade, estado civil, prática de atividades físicas e níveis de ansiedade e depressão não demonstraram associação significativa com o consumo dos mesmos.
Participantes brancos tiveram maior chance de usar medicamentos
Uma das discrepâncias identificadas pelos pesquisadores envolveu a etnia. Aqueles que se identificaram como brancos mostraram uma probabilidade 55% maior de utilizar medicamentos para dormir quando comparados aos participantes negros e pardos.
Os pesquisadores exploraram a possibilidade de essa diferença ser atribuída a quadros mais severos de insônia entre os indivíduos brancos, no entanto, os resultados não sustentaram essa suposição. A pontuação média no índice de gravidade da insônia foi similar entre os grupos: 19,21 para pretos e pardos contra 19,02 para brancos, sem diferenças estatísticas relevantes.
O estudo não consegue determinar a causa dessa associação. Entre as explicações cogitadas pelos autores estão diferenças socioculturais, desigualdades no acesso a serviços de saúde e práticas relacionadas à prescrição médica.
Terapia comportamental é tratamento de primeira linha
Apesar da significativa utilização de medicamentos na amostra estudada, a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I) é considerada o tratamento prioritário. Essa abordagem inicia com uma avaliação detalhada para identificar características individuais e fatores que podem contribuir para a manutenção do problema.
O tratamento abrange hábitos e comportamentos relacionados ao sono, como horários regulares para dormir e acordar, rotinas diárias e percepções sobre o próprio sono. Apenas aplicar medidas básicas chamadas “higiene do sono” não é suficiente para resolver questões relacionadas à insônia.
“Uma terapia comportamental fundamentada em evidências não implica aplicar uma solução padrão para todos”, destaca Renatha.
A avaliação deve considerar aspectos como rotina profissional, horários diários, condições residenciais e familiares além das circunstâncias sociais relacionadas à saúde física e mental do paciente.
Tentar forçar o sono pode aumentar estado de alerta
Outro aspecto discutido pela pesquisadora refere-se à tentativa excessiva de controlar o momento do sono. Dado que o sono é um processo fisiológico natural, forçar-se a adormecer pode provocar exatamente o efeito oposto.
“Quanto mais alguém tenta obrigar-se a dormir, mais alerta e ansiosa essa pessoa pode se tornar”, explica Renatha.
O foco do tratamento é restaurar condições favoráveis aos mecanismos naturais do sono. As estratégias incluem manter horários regulares e incentivar atividade física e mental durante o dia; além disso, reforçar a associação da cama principalmente com sono e atividade sexual.
Após uma noite mal dormida, é comum tentar compensar o cansaço permanecendo mais tempo na cama ou levantando mais tarde. Segundo a pesquisadora, essas tentativas podem perpetuar a insônia ao invés de solucioná-la.
“A qualidade do sono é um processo contínuo; desde o momento em que você acorda está investindo na qualidade do seu descanso”, conclui ela.
Medicamentos têm papel no tratamento, diz pesquisadora
A recomendação da terapia comportamental como primeira linha não implica na exclusão dos medicamentos do tratamento. A escolha deve ser baseada nas condições clínicas do paciente após avaliação profissional minuciosa.
“Os medicamentos podem desempenhar um papel significativo e não devem ser vistos apenas negativamente”, afirma Renatha.
Conforme ela explica, a análise médica deve levar em conta outros distúrbios do sono existentes ou condições psiquiátricas associadas ao paciente; além disso deve avaliar quais fármacos já estão sendo utilizados pelo indivíduo e os riscos associados ao uso deles. Com essas informações em mãos, o profissional poderá decidir sobre a necessidade ou não da medicação adequada e por quanto tempo ela deverá ser utilizada.
Renatha também alerta aqueles que já usam medicamentos regularmente: qualquer interrupção deve ocorrer sob supervisão médica apropriada.
“Quem já utiliza há algum tempo precisa ter acompanhamento médico antes de interromper por conta própria”, diz ela.
Resultados não podem ser generalizados para toda a população
Os pesquisadores enfatizam que as conclusões obtidas não refletem toda a população brasileira afetada pela insônia. A amostra foi composta por adultos com idades entre 18 e 59 anos (com média de 38 anos), caracterizados principalmente por serem mulheres com ensino superior e residentes na Região Sudeste.
O recrutamento ocorreu entre março de 2021 até julho de 2022 através das redes sociais promovidas pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Os voluntários apresentavam sintomas relacionados à insônia enquanto buscavam tratamentos psicológicos não farmacológicos dentro do protocolo da pesquisa realizada em uma unidade universitária especializada em sono.
A metodologia digital pode ter incentivado a participação daqueles com maior escolaridade ou familiaridade com plataformas digitais em busca ativa por ajuda psicológica.
Dessa forma, as taxas encontradas – como os 60% utilizando medicamentos atualmente ou os 38% consumindo-os durante cinco ou sete noites na semana – referem-se especificamente aos indivíduos participantes deste estudo e não devem ser vistas como representativas da prevalência geral no Brasil.
Outras limitações também foram observadas: as informações sobre sintomas e uso dos fármacos foram fornecidas diretamente pelos participantes sem validação quanto às prescrições médicas ou duração dos tratamentos realizados. Por se tratar de um estudo transversal, foi possível observar associações entre fatores estudados mas sem estabelecer relações causais definitivas。
Pesquisadores defendem maior acesso a alternativas
Os resultados sugerem aos autores uma urgência na investigação sistemática sobre o uso dos medicamentos entre pessoas com sintomas de insônia – especialmente aquelas interessadas em opções terapêuticas não farmacológicas.
Os pesquisadores propõem uma avaliação criteriosa sobre indicação médica quanto à duração dos tratamentos com hipnóticos bem como monitoramento dos efeitos colaterais potenciais ao longo do tempo.
Simultaneamente eles ressaltam a importância da ampliação no acesso às intervenções comprovadamente eficazes baseadas na Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia. A combinação responsável entre psicoterapia com manejo adequado dos medicamentos pode ser um caminho viável para minimizar usos inadequados e aprimorar os cuidados oferecidos às pessoas enfrentando problemas relacionados ao sono.
