SUS é destacado como modelo global por diretor da OMS, ressaltando o papel de liderança do Brasil em pactos sobre pandemias
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), destacou a relevância do Brasil no cenário global de saúde pública. Durante sua recente visita ao Rio de Janeiro para a Conferência Internacional de Aids, ele elogiou o Sistema Único de Saúde (SUS) como uma das principais referências mundiais em termos de atendimento universal. O médico etíope também expressou preocupação com os efeitos dos cortes no financiamento internacional à saúde, evidenciou a importância da implementação do Acordo de Pandemias e enfatizou a necessidade de fortalecer a cooperação entre nações em face de futuras crises sanitárias.
Tedros, que é o primeiro africano a liderar a OMS, está no último ano de seu mandato iniciado em 2017, que se encerrará em 2027. Ele ressaltou que um dos focos até o término de sua gestão será promover mudanças estruturais visando à autonomia financeira da organização.
Em sua estadia no Brasil, Tedros recebeu um cartão do SUS como presente, um gesto que considerou simbólico e representativo da importância do sistema brasileiro na saúde pública.
“O SUS é um exemplo para o mundo”, afirmou ele, destacando que a universalidade no atendimento brasileiro mostra na prática que o acesso à saúde deve ser reconhecido como um direito fundamental.
Brasil é visto como protagonista na saúde mundial
Na análise de Tedros, a contribuição do Brasil para a saúde global não se limita apenas às suas dimensões territorial ou populacional, mas está alicerçada em três pilares considerados essenciais pela OMS.
O primeiro desses pilares é o modelo de Atenção Primária desenvolvido pelo SUS, que tem sido apontado como referência para diversos países na construção de seus sistemas públicos de saúde.
Ele também mencionou o impacto dessa experiência em sua carreira profissional. Em 2006, enquanto era ministro da Saúde da Etiópia, buscou apoio técnico junto à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para aprimorar a atenção básica em seu país.
Outro ponto ressaltado foi a capacidade brasileira na produção de vacinas, medicamentos e insumos estratégicos.
Tedros afirmou que instituições como a Fiocruz desempenham um papel crucial na redução das desigualdades no acesso global aos imunizantes, uma questão que se tornou evidente durante a pandemia da Covid-19.
O terceiro aspecto abordado refere-se à atuação diplomática do Brasil nas negociações internacionais.
Atualmente, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo brasileiro está à frente das discussões sobre o anexo do Acordo de Pandemias denominado PABS (Sistema de Acesso aos Patógenos e Partilha de Benefícios), uma iniciativa destinada a acelerar o compartilhamento de informações sobre novos agentes infecciosos e assegurar uma distribuição equitativa de vacinas e tecnologias relacionadas à saúde.
Para Tedros, é imprescindível aprovar esse mecanismo para que o acordo internacional seja implementado efetivamente.
Cortes de recursos preocupam OMS
Apesar dos avanços científicos observados na última década, Tedros expressou sua preocupação com o futuro das políticas globais direcionadas ao combate às epidemias.
Ele ressaltou que os novos casos de HIV diminuíram mais de 40% desde 2010 devido ao desenvolvimento de novas tecnologias, incluindo o lenacapavir, considerado um dos progressos mais significativos na prevenção da doença.
No entanto, alertou que os cortes nos investimentos internacionais podem comprometer esses resultados positivos.
Segundo Tedros, os cortes realizados por vários países, somados ao aumento das tensões geopolíticas e ao enfraquecimento da colaboração internacional, tornam incerta a possibilidade de atingir a meta global de eliminar as emergências relacionadas ao HIV até 2030.
Por essa razão, ele defendeu a criação de estratégias sustentáveis capazes de preservar os avanços conquistados nas últimas décadas.
Guerras ampliam crises sanitárias
Tedros também destacou as consequências dos conflitos armados sobre a saúde pública mundial.
Segundo seu relato, milhões enfrentam extrema vulnerabilidade devido às guerras e crises humanitárias atuais.
Os cenários mais alarmantes incluem o Sudão, onde cerca de 33 milhões dependem diariamente da assistência humanitária; a Ucrânia, com aproximadamente 10 milhões necessitando urgentemente de ajuda; e Gaza, onde cerca de 2,1 milhões enfrentam uma severa crise humanitária.
Ele ainda mencionou a situação crítica na República Democrática do Congo, onde um novo surto de Ebola ocorre em meio aos conflitos civis e à fome generalizada.
A violência nestas regiões dificulta não apenas a identificação dos casos como também o rastreamento dos contatos e as ações das equipes médicas. Para ele, um cessar-fogo é fundamental para controlar a propagação da doença.
Apesar da gravidade da situação atual, Tedros acredita que o risco de disseminação internacional permanece baixo e não há motivos para alarmismo fora das áreas afetadas.
Com uma trajetória marcada por experiências pessoais durante conflitos armados na infância e os efeitos do transtorno do estresse pós-traumático, ele considera particularmente doloroso observar o sofrimento das crianças em zonas conflituosas enquanto defende soluções pacíficas. Para Tedros: “a paz é o melhor remédio” quando se trata da saúde pública mundial.
OMS busca independência financeira
Nos últimos anos, Tedros enfrentou desafios significativos na história recente da Organização Mundial da Saúde. Isso inclui manejar crises como a pandemia da Covid-19 e lidar com a decisão do governo dos Estados Unidos sob Donald Trump em se retirar da organização.
Apesar desse cenário adverso, ele mantém sua confiança na continuidade da cooperação internacional frente às ameaças sanitárias globais. Além disso, destacou que a OMS continuará oferecendo suporte técnico aos cidadãos americanos independentemente das contribuições financeiras provenientes dos EUA.
Como parte do legado desejado por sua administração, Tedros está empenhado em implementar uma ampla reforma financeira dentro da organização.
O objetivo é aumentar gradualmente as contribuições obrigatórias dos Estados-membros no orçamento da OMS — elevando essa participação dos atuais 14% para 50% até 2031.
De acordo com Tedros, parte desse cronograma já foi cumprido com os pagamentos previstos para 2023 e 2025 realizados pelos países-membros. Agora restam as etapas finais dessa reforma crucial para garantir maior autonomia financeira e estabilidade à principal agência internacional voltada à saúde pública.
