Contaminação alimentar: 1,5 milhão de vidas perdidas anualmente, com risco maior para as crianças, adverte a OMS

A contaminação alimentar continua a ser uma das principais ameaças à saúde global. Um recente estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que anualmente cerca de 866 milhões de indivíduos contraem doenças em decorrência do consumo de alimentos contaminados, resultando em aproximadamente 1,5 milhão de mortes associadas a essas enfermidades.

Divulgados nesta quarta-feira, os dados oferecem uma visão abrangente sobre as consequências humanas, sociais e econômicas das doenças transmitidas por alimentos. A OMS ressalta que muitas dessas ocorrências poderiam ser evitadas através de medidas conhecidas, como o aumento do acesso à água potável, melhorias no saneamento básico, práticas adequadas de higiene, fortalecimento dos sistemas de vigilância sanitária e utilização de métodos seguros no processamento dos alimentos.

O relatório destaca também a vulnerabilidade das crianças pequenas, que estão entre os grupos mais afetados pelos riscos relacionados à contaminação alimentar.

Crianças estão entre as maiores vítimas

Apesar de representarem apenas 9% da população global, as crianças com menos de cinco anos correspondem a quase um terço dos casos de doenças alimentares reportados mundialmente.

Conforme apontado pela OMS, esse grupo etário enfrenta um risco quase três vezes maior de adoecer devido ao consumo de alimentos contaminados.

As doenças diarreicas estão entre as principais ameaças para essa faixa etária e permanecem como uma importante causa de mortalidade infantil em várias partes do mundo.

Além dos perigos imediatos, a exposição prolongada a certos produtos químicos presentes nos alimentos pode prejudicar o desenvolvimento físico e cognitivo das crianças.

Entre os contaminantes mais alarmantes estão o chumbo e o metilmercúrio, ambos associados a danos neurológicos irreversíveis, dificuldades na aprendizagem e comprometimento do desenvolvimento cerebral.

Bactérias e vírus lideram casos, mas químicos provocam mais mortes

A pesquisa realizada pela OMS revela que os perigos biológicos são responsáveis pela maioria das doenças transmitidas por alimentos.

Em 2021, aproximadamente 860 milhões dos casos registrados no mundo foram atribuídos a bactérias, vírus e parasitas.

No entanto, os contaminantes químicos mostraram um impacto desproporcional na mortalidade associada às doenças alimentares.

Segundo o levantamento, 73% das mortes relacionadas a alimentos contaminados estão ligadas a exposições químicas.

A maior parte dessas fatalidades foi atribuída ao arsênio inorgânico e ao chumbo.

O arsênio foi responsável por cerca de 42% das mortes vinculadas a contaminantes químicos, enquanto o chumbo esteve associado a 31% dos óbitos registrados.

A OMS enfatiza que essas substâncias aumentam significativamente o risco de doenças cardiovasculares, câncer e outras condições crônicas severas.

Impacto econômico ultrapassa centenas de bilhões de dólares

Além dos efeitos na saúde pública, a insegurança alimentar gera custos significativos para a economia mundial.

Estima-se que as doenças transmitidas por alimentos resultem em perdas anuais próximas a US$ 310 bilhões em produtividade devido ao afastamento dos trabalhadores afetados por essas enfermidades.

Quando ajustados para refletir as variações no custo de vida entre diferentes países, esse impacto sobe para cerca de US$ 647 bilhões ao ano.

Para a OMS, esses dados evidenciam que a segurança alimentar deve ser considerada não apenas uma questão sanitária, mas também uma prioridade econômica e social.

“A segurança alimentar não é um conceito abstrato; ela se faz presente em cada refeição e afeta todas as famílias diariamente. Os alimentos contaminados sempre foram uma preocupação significativa para a saúde pública; no entanto, até agora não tínhamos uma compreensão completa do seu enorme custo humano e econômico. Esses novos dados transformam essa perspectiva”, afirma Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

Desigualdade regional continua elevada

Apesar da redução global na carga das doenças alimentares desde o início dos anos 2000, os dados revelam que o problema persiste em níveis elevados e com distribuição desigual pelo globo.

As regiões mais impactadas continuam sendo a África e o Sudeste Asiático, que juntas acumulam quase três quartos dos casos registrados globalmente e cerca de 60% das mortes relacionadas à contaminação alimentar.

A OMS acredita que este novo conjunto de informações poderá auxiliar governos na formulação de políticas públicas voltadas à prevenção e controle dessas doenças.

“Pela primeira vez, os países dispõem de dados específicos para identificar onde a carga é mais alta. Com essas informações em mãos, os governos podem priorizar ações necessárias para proteger a saúde da população”, complementa Tedros.

Contaminação química preocupa especialistas

A nova análise ampliou significativamente a base disponível de evidências ao considerar 42 tipos diferentes de perigos alimentares em 194 países entre os anos 2000 e 2021.

Esses perigos incluem bactérias, vírus, parasitas e produtos químicos potencialmente nocivos.

O estudo passou a incluir contaminantes que antes não eram analisados sistematicamente como metais pesados, rotavírus e o Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas.

De acordo com a OMS, contaminantes químicos como arsênio inorgânico, chumbo e metilmercúrio podem entrar na cadeia alimentar tanto por processos naturais quanto por atividades humanas relacionadas à agricultura, mineração industrial e poluição ambiental.

Uma vez presentes nos alimentos, esses elementos frequentemente se tornam difíceis ou até impossíveis de serem eliminados.

Diante desse cenário preocupante, a organização recomenda que os governos implementem medidas para prevenir a contaminação desde suas origens. Isso inclui fortalecer práticas agrícolas seguras, ampliar controles industriais e endurecer regulamentações ambientais.

A preocupação é especialmente grande em relação ao chumbo e ao arsênio inorgânico — associados a mais de um milhão de mortes anualmente — além do metilmercúrio que pode acarretar danos permanentes no desenvolvimento neurológico infantil.

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